domingo, 10 de maio de 2015

Fingimento

   Fingir que nada aconteceu é a pior coisa que existe. Continuar a vida sorrindo, fingindo que todos os móveis ainda estão na casa montados e a pessoa ainda mora lá, é a pior coisa que existe. Não que não devamos continuar sorrindo, mas fingir que a mudança não fez diferença me dói. Eu só finjo. Eu finjo pra não lembrar as pessoas que eu mais amo sobre a dor. Eu finjo que nenhuma lembrança me toca para não chorar na frente de quem choraria junto comigo. Eu falo com um sorriso no rosto pra fazer o coração alheio lembrar gostosamente das coisas. Mas a pessoa realmente não mora mais lá... os móveis dela não estão mais lá. A árvore de Natal dela não é mais montada. A mesa da varanda não é mais preenchida com os melhores almoços de domingo. Eu não acompanho mais ninguém até à padaria pra buscar um refrigerante pro almoço. A gente não passa mais o Dia das Mães lá. A gente não recebe mais uma visita todo sábado. Até o Beethoven sabia. A gente não deita mais naquele tapete, debaixo do ventilador, e dorme sem querer. A gente não xinga mais os meninos que deixam cair a bola dentro daquele quintal. Eu não ganho mais sorvete colorido daquelas sorveterias de bairro afastado. Eu não sinto mais aquele cheiro peculiar das roupas dela. Nem aquele cheiro misturado de amaciante e esmaltes que o quartinho da máquina de costura tinha. E eu não ouço mais a máquina de costura. Nem a vejo costurar roupinhas pras minhas bonecas com aquele óculos redondinho, caprichosa que só. Eu não sinto mais o gosto de leite morno com Nesquik de uma manhã friozinha ao dormir no quarto de hóspedes. Não ouço a televisão falar sobre as novelas mexicanas da tarde. Não vejo bobes nos seus cabelos, nem os fios brancos que devem ser pintados logo. Eu só finjo não sentir falta de tudo isto.

   São nos meus mais desesperados sentimentos que eu penso se mais alguém chora escondido. Eu gostaria mesmo que não, mas é impossível não sentir falta da pessoa mais batalhadora e maravilhosa com quem já convivemos um dia. Feliz Dia das Mães, por todos os seus filhos e netos. [Eu sinto uma saudade desgraçada de você.]