Fingir que nada
aconteceu é a pior coisa que existe. Continuar a vida sorrindo, fingindo que
todos os móveis ainda estão na casa montados e a pessoa ainda mora lá, é a pior
coisa que existe. Não que não devamos continuar sorrindo, mas fingir que a
mudança não fez diferença me dói. Eu só finjo. Eu finjo pra não lembrar as
pessoas que eu mais amo sobre a dor. Eu finjo que nenhuma lembrança me toca para
não chorar na frente de quem choraria junto comigo. Eu falo com um sorriso no
rosto pra fazer o coração alheio lembrar gostosamente das coisas. Mas a pessoa realmente não mora mais lá... os móveis dela não estão mais lá. A árvore de Natal dela
não é mais montada. A mesa da varanda não é mais preenchida com os melhores
almoços de domingo. Eu não acompanho mais ninguém até à padaria pra buscar um
refrigerante pro almoço. A gente não passa mais o Dia das Mães lá. A gente não
recebe mais uma visita todo sábado. Até o Beethoven sabia. A gente não deita
mais naquele tapete, debaixo do ventilador, e dorme sem querer. A gente não
xinga mais os meninos que deixam cair a bola dentro daquele quintal. Eu não
ganho mais sorvete colorido daquelas sorveterias de bairro afastado. Eu não
sinto mais aquele cheiro peculiar das roupas dela. Nem aquele cheiro misturado
de amaciante e esmaltes que o quartinho da máquina de costura tinha. E eu não
ouço mais a máquina de costura. Nem a vejo costurar roupinhas pras minhas
bonecas com aquele óculos redondinho, caprichosa que só. Eu não sinto mais o
gosto de leite morno com Nesquik de uma manhã friozinha ao dormir no quarto de
hóspedes. Não ouço a televisão falar sobre as novelas mexicanas da tarde. Não
vejo bobes nos seus cabelos, nem os fios brancos que devem ser pintados logo.
Eu só finjo não sentir falta de tudo isto.
São nos meus mais
desesperados sentimentos que eu penso se mais alguém chora escondido. Eu
gostaria mesmo que não, mas é impossível não sentir falta da pessoa mais
batalhadora e maravilhosa com quem já convivemos um dia. Feliz Dia das Mães, por
todos os seus filhos e netos. [Eu sinto uma saudade desgraçada de você.]

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